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terça-feira, 23 de setembro de 2014

Tri

   Sair por aí dizendo que a montanha russa está indo pra cima nunca pareceu tão certo. Não por estar convicta de alguma grande felicidade. Mas quem habita os trilhos sabe como se comporta um vale. Depois de um tempo, você só pode subir.
   E dá um arrepio quando eu olho pra trás, e talvez um susto quando penso que estou cada vez mais longe do último ponto:
   O vale da montanha russa, a velha zona de conforto, onde eu, na covardia do conformismo, cogitei a ideia de ficar pra sempre. Sem altura, sem medo, sem riscos. Mas não foi pelo vale que paguei o brinquedo. Mas pela velocidade dos pensamentos, as subidas de níveis e os loops das situações.
   E talvez eu até dê uma segunda volta passando por aquele lugar sem graça pra pegar impulso. Mas uma vez ciente de três outros trechos ora perigosos, ora empolgantes, acabo torcendo pro tempo acabar antes da descida.

domingo, 27 de abril de 2014

Earl Grey

   Naquela época eu bebia muito chá. Talvez um hobby herdado de Alice, sabia todos os cheiros e cores e acompanhamentos, mas isso não se esquece. E também lia muito, a fumaça doce vinha sempre com o regozijo de alguma prosa poética de Lewis. E como era de certo bem aproveitado o tempo livre. No aguardo do que havia de vir, no aguardo do agora que ainda não existia.
   E entre páginas e xícaras, a melanina escassa dos olhos se perdiam por entre paisagens a serem registradas, eternizadas como que cheias de significado. Era o que eu buscava: Significados.
   É estranho pensar em como parecia ser um alvorecer, tudo aquilo, qualquer faísca de satisfação, tão facilmente obtida, tanta inspiração interna que sem aviso, se esvairia. Toda novidade tem seu preço: acabar um dia, ou simplesmente seguir o curso mais óbvio da metamorfose, que é deixar de ser novidade.
   Aquela facilidade ínfima de ver uma beleza apolínea em qualquer mínimo artefato haveria de se sublimar como a fumaça do último saquinho de Earl Grey. Curioso esse chá, que nos desaponta com o tímido sabor, após nos enfeitiçar com seu exuberante aroma.
   Curiosa essa vida, saturada de energia ainda que a grosso modo se é comparada à inércia. E depois cada flor, cada livro e cada grão de açúcar, apenas nos passam pela memória como uma foto sem foco, bem diferente das da época. E a percepção das mudanças se assemelham ao despertar de um sono de três anos, em busca da retomada daquele ponto de vista quase esquecido.
   Quando penso na ironia do único chá disponível ser chá francês torrado em um minúsculo saco plástico que viajou pelo Atlântico até mim, como um presente, me vem o pesar de usá-lo, para que continue por muito tempo sendo uma novidade, e que eu nunca venha me decepcionar com seu sabor, antes me satisfaça apenas seu aroma, como na vida quando tento buscar sempre um porvir que acrescente, adiando a chegada para que não tenha a decepcionante estagnação como companhia.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Enfeveirada

   A vida deve ser mesmo cheia desses momentos grotescos de mudanças. Pra melhor, pra pior, pra diferente. Mudanças que nos obrigam a pensar em tudo de um ponto de vista egocêntrico. Não egoísta, mas fazem olhar para dentro. A vida exige que pensemos só em nós por pelo menos uma vez. Que façamos limpezas, que expiremos positividade. Não positividade surfista, mas uma bem real, uma que funcione. Que não seja só falada, mas sentida. Que disperse cada medo recente, cada remorso errado, cada preocupação com o insolucionável.
   A mudança em questão exigiu um pouco mais de mim do que nunca. Como se eu me pedisse uma fuga, um vazio, um recomeço. Aflorou-se então uma necessidade de deixar ir, de desapego (talvez motivado pelo amigo que martelou essa ideia em volta de mim todo o fim de semana), de abstinência necessária, da busca nostálgica pelo "como eu estava nessa mesma época, anos atrás" e por incrível que pareça, e parafraseando o que um dia li num desses sites esotéricos, cada ser tem sua época do ano para fazer um balanço e providenciar uma diferença que seja na percepção ou ação.
   Dessa busca pelos meus passados fevereiros e marços, uma recapitulação do início de singelas relações aflora a vontade de dizer para cada pessoa o quanto ela é importante e quão peculiar a vida foi ao proporcionar tais encontros, de certa forma.
   Além de retomar o passado, essas mudanças no meu próprio eixo abrem gigantescas expectativas para o futuro, dando a impressão de que tudo ficará bem. Não de uma forma enganosa, mas principalmente, talvez, porque foi seguida à risca a instrução de deixar que tudo de mal fosse embora. Mesmo que beliscasse um pouquinho pra sair, mesmo que às vezes arda, foi arrancado, e não volta.
   E a previsão é de montanhas verdes e barulhos de cascatas com longas caminhadas cheias de palavras felizes ou de confortável silêncio, mas vazias de preocupação. E tudo que almeja no momento é se perder por entre as trilhas de cabelo cor de palha e sorrisos tímidos. Por entre cidades de pedra ou de papel. Ou de tesoura.

domingo, 21 de agosto de 2011

Privação

Não há segregação na alegria
Alegria é alegria
Se não quiser ouvir uma, não ouvirá nenhuma.

sábado, 11 de junho de 2011

Monstro

"Que bom que nunca teve medo de mim" - pensei enquanto me recordava de outras situações. - "Nunca tive medo de nós também. Tem me parecido uma boa ideia, agora."

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Doce morte de Pauline Baynes

A escrivaninha estaria cheia de tubos de guache pela metade
e fileiras de canetas e pincéis desgastados.
Música de Handel tocava ao fundo
e os cães de Pauline estariam deitados em seus pés.

terça-feira, 24 de maio de 2011

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Lua cheia

- Cada dia que passa, gosto mais de você.

Queria dizer o mesmo. Queria dizer "eu também", mas estava feliz. Estava sem palavras. E não queria estragar tudo com uma resposta insossa.

E o que tem a lua?! Ah, estava linda àquela noite.

Questionário

- Não quer falar com seus amigos?
- Não.
- Nem com seu melhor amigo?
- Não.
- Você está bem?
- Eu não sei.
- O que você quer?

Não houve resposta.