terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Enfeveirada

   A vida deve ser mesmo cheia desses momentos grotescos de mudanças. Pra melhor, pra pior, pra diferente. Mudanças que nos obrigam a pensar em tudo de um ponto de vista egocêntrico. Não egoísta, mas fazem olhar para dentro. A vida exige que pensemos só em nós por pelo menos uma vez. Que façamos limpezas, que expiremos positividade. Não positividade surfista, mas uma bem real, uma que funcione. Que não seja só falada, mas sentida. Que disperse cada medo recente, cada remorso errado, cada preocupação com o insolucionável.
   A mudança em questão exigiu um pouco mais de mim do que nunca. Como se eu me pedisse uma fuga, um vazio, um recomeço. Aflorou-se então uma necessidade de deixar ir, de desapego (talvez motivado pelo amigo que martelou essa ideia em volta de mim todo o fim de semana), de abstinência necessária, da busca nostálgica pelo "como eu estava nessa mesma época, anos atrás" e por incrível que pareça, e parafraseando o que um dia li num desses sites esotéricos, cada ser tem sua época do ano para fazer um balanço e providenciar uma diferença que seja na percepção ou ação.
   Dessa busca pelos meus passados fevereiros e marços, uma recapitulação do início de singelas relações aflora a vontade de dizer para cada pessoa o quanto ela é importante e quão peculiar a vida foi ao proporcionar tais encontros, de certa forma.
   Além de retomar o passado, essas mudanças no meu próprio eixo abrem gigantescas expectativas para o futuro, dando a impressão de que tudo ficará bem. Não de uma forma enganosa, mas principalmente, talvez, porque foi seguida à risca a instrução de deixar que tudo de mal fosse embora. Mesmo que beliscasse um pouquinho pra sair, mesmo que às vezes arda, foi arrancado, e não volta.
   E a previsão é de montanhas verdes e barulhos de cascatas com longas caminhadas cheias de palavras felizes ou de confortável silêncio, mas vazias de preocupação. E tudo que almeja no momento é se perder por entre as trilhas de cabelo cor de palha e sorrisos tímidos. Por entre cidades de pedra ou de papel. Ou de tesoura.

Um comentário:

  1. Que texto bonito Nathalia! É preciso muita maturidade, sensibilidade e uma intimidade ímpar com as palavras, das quais se tem descuidado tanto hoje, para compor tão bela prosa poética. As cidades sempre são de papel por onde gravamos os caracteres de nossa travessia, embora as muitas pedras do caminho. Quem me dera escrever como você.

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